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Pacto com quem?

por João Camilo Torres

 

Quando fui assinar a carteira de trabalho na Aletria, o contador surgiu com várias atribuições. Olhando na tabela com a classificação brasileira de profissões, estava lá, código 2615: Profissionais da escrita, com as opções de Autor Roteirista, Crítico, Escritor de Ficção, Escritor de não ficção, Poeta e Redator de Textos técnicos. Pedi para colocar “Escritor de não ficção” (tratei como ficção a descrição da função que apresentavam), mas ainda ouvi que não era exatamente algo muito útil e não é que discordo ou concordo: estava apenas pensando no que estaria escrito na carteira, que afinal de contas, é cheia de espaços em branco para serem preenchidos…

Por conta daquela disputa simbólica inventada por Baudelaire e Flaubert, um escritor profissional pode ser visto quase como uma aberração; uma denominação reservada para os autores de almanaques, guias de viagem, manuais técnicos e fantasmas autores de biografias encomendadas por algum figurão, que decidiu dar ele mesmo de presente no Natal. Imagine: um poeta profissional então! Qual é a economia do verso, algo que sequer pensa em ocupar toda a matéria-prima que tem à disposição, mal usando todo o espaço da página?

Alguns escritores vão preferir mencionar outras ocupações. Claro, se você é um médico, a literatura é apenas uma amante. Você é casado com a medicina. E assim vai: professores, jornalistas ou publicitários. Sim, Leminski, Borges, Bioy Casares – todos hábeis em se expressarem de maneira sintética – deixaram em anúncios, fragmentos, que nunca serão incluídos nas antologias.

Quando ficar velhinho, tipo foto do Mário Quintana (você quase só acha foto dele já velhinho, como se a poesia tivesse surgido com os cabelos brancos), você, com modéstia, poderá dizer que é um escritor. Então, será até mesmo simpático. Se for um autor de Best-Seller é antipático. Quase uma intrusão, essa insistência de ser lembrado como escritor, já que muita gente se esquece disto. Autores independentes ou iniciantes, então, se perguntam muitas vezes: o que é um escritor? Afinal, sem muitos leitores, precisam ter certeza de que são muitos escritores.

Dizer-se escritor pode ser uma declaração de guerra, mas nenhum escritor tem a garantia de que será lido, quanto mais ouvido.

Você pode criar uma ruptura e recusar-se a deixar que lhe coloquem os guizos, como naquela fábula dos ratos e do gato. Afinal, o escritor, de certa forma, cria seus próprios guizos, o que falta é quem os ouça tilintar. Tipo Carolina Maria de Jesus: ser escritora era como ter em mãos a possibilidade de se distanciar daquela realidade em que vivia. Não é uma fantasia do tipo meninos entram no armário e viajam para Nárnia, pois o mundo para ela já era divididos em duas realidades. Uma da qual era excluída e outra da qual ela queria se excluir. Por isso, falar que era escritora e usar essa posição como uma arma ou escudo, contra os seus vizinhos mesmo.

É uma rebeldia, mas não a do poeta maldito, é mais uma Quixotada, uma forma de ver e reorganizar o mundo, sem ser uma loucura, pois entende que aquela situação existe por um motivo e não por um acidente do destino. Assim da mesma forma que para o Quixote, a existência é apenas possível como cavaleiro andante e por isso era preciso que existissem gigantes e feiticeiros, para Carolina, é preciso que ela escreva para ser uma escritora e nos faz pensar que algumas vezes é um luxo não saber se é um escritor e escrever sobre isso.

No final, depois de ficar tentando colocar palavras em certa ordem e formar frases, talvez tudo não passe de uma tradição de família, e não uma ocupação de heróis ou abnegados, em uma carteira de trabalho.

João Camilo Torres

 é podcaster, ensaísta, escritor de contos, blogueiro da Quixote + Do e roteirista da revista Sci-Fic Punk Project.

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